Síndrome do pôr do sol em idosos com demência: o que é e como lidar em casa
Por Equipe Human Life
A síndrome do pôr do sol é uma piora da confusão, agitação e irritabilidade que aparece no fim da tarde e à noite em pessoas com demência, como Alzheimer. Não é "manha" nem frescura: faz parte da doença, mas existem estratégias simples que ajudam a reduzir esses episódios e a proteger tanto o idoso quanto a família.
Resumo rápido para familiares e cuidadores
- A síndrome do pôr do sol é uma piora da confusão e da agitação no fim da tarde e à noite em pessoas com demência.
- Costuma estar ligada a alterações do relógio biológico, cansaço acumulado, ambiente pouco iluminado e mudanças de rotina.
- Manter rotina previsível, boa iluminação e atividades mais tranquilas no fim do dia ajuda bastante.
- É importante descartar causas físicas: dor, infecção, efeitos de medicamento, hipoglicemia e outros problemas clínicos.
- Procure ajuda médica se os sintomas forem súbitos, intensos ou vierem acompanhados de febre, queda, dificuldade para falar ou para se movimentar.
Um cenário muito comum na vida de quem cuida
Talvez o seu dia seja assim: o idoso passa a manhã relativamente bem, almoça, conversa um pouco, dá até alguns sorrisos. Mas, quando o relógio se aproxima das 17h, parece que alguém vira uma chave. Ele se levanta, anda de um lado para o outro, diz que precisa "ir embora", pergunta pelas mesmas pessoas o tempo todo, fica irritado, quer abrir a porta. Toda noite se repete a mesma cena, e quem está cuidando termina o dia esgotado.
Isso não é falta de carinho nem descuido seu. Esse quadro tem nome e é mais comum do que parece: síndrome do pôr do sol.
O que é, afinal, a síndrome do pôr do sol?
A síndrome do pôr do sol, também chamada de sundowning, é um fenômeno em que a pessoa com demência apresenta aumento de confusão, agitação, ansiedade ou mudanças de humor no fim da tarde e início da noite. É mais frequente em fases intermediárias da demência, mas pode aparecer em diferentes momentos da evolução da doença. Em alguns casos, os sintomas surgem quase todos os dias; em outros, aparecem apenas em situações específicas, como após um dia muito cansativo.
Na prática, o que a família percebe é:
- Durante o dia, o idoso está relativamente estável;
- No fim da tarde, a confusão e a irritabilidade aumentam;
- A noite se torna mais difícil para todos, especialmente para quem cuida.
Por que isso acontece em idosos com demência?
Não existe uma única causa confirmada, mas vários fatores se somam e ajudam a explicar a síndrome do pôr do sol:
- Alteração do relógio biológico (ritmo circadiano): o cérebro, já afetado pela demência, tem mais dificuldade em perceber a transição dia/noite e em organizar sono, vigília e hormônios.
- Menor produção de substâncias ligadas ao sono e ao humor: em muitas demências, há alteração na produção de melatonina e de outros neurotransmissores.
- Fadiga física e mental acumulada: depois de um dia inteiro acordada, a pessoa com demência fica mais vulnerável à irritação e à confusão.
- Ambiente mais escuro e silencioso: à medida que escurece e a casa se esvazia, o idoso pode se sentir mais perdido, com menos referências visuais e sonoras.
- Fatores médicos: dor, infecção, alterações de glicemia, efeitos de medicamentos e outros problemas de saúde podem se intensificar justamente no fim do dia.
Em resumo: o cérebro já fragilizado pela doença precisa lidar com o cansaço, com menos luz, com menos estímulos e, às vezes, com desconfortos físicos. A combinação de tudo isso aparece como essa "piora do comportamento" ao anoitecer.
Sinais e sintomas da síndrome do pôr do sol
Alguns sinais são muito comuns nesse horário:
- Aumento da confusão mental no fim da tarde;
- Agitação, inquietação, andar de um lado para o outro, insistir em "ir embora" ou "ir trabalhar";
- Ficar mais irritado, agressivo ou desconfiado com familiares e cuidadores;
- Ansiedade, medo, sensação de perseguição ou de que "algo ruim vai acontecer";
- Mais dificuldade para dormir, despertares frequentes, inversão de horário (ficar mais desperto à noite);
- Em alguns casos, alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem).
Exemplo rápido
Dona Maria, 82 anos, com Alzheimer, costuma ficar tranquila pela manhã. Mas, depois das 17h, começa a dizer que precisa buscar os filhos na escola (que já são adultos), abre e fecha portas, mexe em gavetas e tenta sair de casa. Durante o dia, quase não apresenta esse comportamento. Esse é um exemplo típico de comportamento ligado à síndrome do pôr do sol.
Checklist: isso pode ser síndrome do pôr do sol?
Esse quadro não substitui o diagnóstico médico, mas ajuda a organizar o que você está observando:
Situação observada Pode sugerir síndrome do pôr do sol quando… Horário dos sintomas Os episódios surgem principalmente no fim da tarde e início da noite. Comportamento durante o dia O idoso passa boa parte do dia mais calmo e cooperativo. Tipo de comportamento Há aumento de confusão, agitação, irritabilidade e repetição de perguntas. Sono O idoso tem dificuldade para iniciar o sono ou acorda várias vezes agitado. Gatilhos Os episódios pioram com cansaço, ambiente escuro, mudanças de rotina ou muito barulho.Como diferenciar a síndrome do pôr do sol de outras complicações?
Nem todo comportamento difícil à noite é "só" síndrome do pôr do sol. Outras situações podem imitar ou agravar esse quadro, como:
- Delirium (estado confusional agudo): começa de forma súbita (em horas ou poucos dias), com alteração importante da consciência. Pode estar ligado a infecções, desidratação, efeitos de medicamentos ou internações, e exige avaliação médica urgente.
- Dor mal controlada: artrite, dores musculares, feridas, dor abdominal, dor de cabeça, entre outras.
- Infecções: urinária, respiratória, febre sem causa aparente.
- Outros problemas clínicos: hipoglicemia, alterações de pressão, efeitos de novas medicações.
Sinais de alerta que pedem atendimento rápido
- Confusão muito mais intensa do que o habitual, de início súbito;
- Febre, tremores, tosse intensa ou dor ao urinar;
- Queda, dificuldade súbita para falar, sorrir ou mexer um lado do corpo;
- Sonolência extrema, desmaios ou ausência de resposta.
Na dúvida, é mais seguro falar com o médico ou procurar um serviço de urgência, especialmente se o idoso já é frágil ou tem várias doenças associadas.
O que fazer na hora da crise em casa?
Você está ali, quase anoitecendo, e o idoso começa a se agitar. O que pode ajudar, na prática?
1. Mantenha a calma (sabemos que é difícil)
A pessoa com demência percebe o tom de voz, a expressão e a tensão no corpo de quem está ao lado. Falar alto, discutir ou "forçar a lógica" costuma aumentar ainda mais o medo e a confusão.
2. Reduza estímulos confusos
- Abaixe o volume da TV e dos rádios;
- Evite muitas pessoas falando ao mesmo tempo;
- Deixe o ambiente bem iluminado, evitando sombras que possam assustar.
3. Use frases simples e tranquilizadoras
Prefira frases curtas, repetidas, em tom de acolhimento, como:
- "Está tudo bem, você está em casa."
- "Eu vou ficar aqui com você."
- "Daqui a pouco vamos descansar um pouquinho."
4. Direcione a atenção para algo mais tranquilo
- Fotos de família;
- Uma música de que ele goste;
- Uma revista com imagens grandes;
- Um lanche leve (se não houver restrição médica).
5. Não discuta com a "lógica da demência"
Se ele disser que precisa ir trabalhar ou buscar um filho já adulto, bater de frente com a realidade ("isso é impossível, você já está aposentado") pode piorar. Em vez disso, valide o sentimento e redirecione: "Eu sei que isso é importante para você. Vamos sentar um pouco; daqui a pouco a gente vê isso juntos."
Como prevenir ou reduzir os episódios ao longo do dia?
Aqui entra o planejamento da rotina, que costuma fazer muita diferença.
Estratégias ao longo do dia
- Rotina previsível: manter horários parecidos para acordar, comer, tomar medicamentos e dormir.
- Luz natural: abrir as janelas e, se for seguro, levar o idoso para uma área externa pela manhã ajuda a regular o relógio biológico.
- Atividades leves pela manhã: caminhadas curtas, alongamentos simples, atividades cognitivas leves (jogos simples, quebra-cabeças, leitura).
- Evitar cochilos longos à tarde, principalmente perto do horário de dormir.
- Cuidado com cafeína e álcool no fim do dia, salvo orientação médica específica.
Checklist "antes do entardecer"
Por volta das 16h ou 17h, vale perguntar:
- O idoso fez uma refeição adequada nas últimas horas?
- Está hidratado (água, suco, chá, conforme orientação)?
- Está confortável? Foi ao banheiro? Não está com roupas apertadas ou incômodas?
- O ambiente está iluminado e minimamente organizado?
- A TV não está em canal com notícias violentas ou muito barulho?
- Você, cuidador, conseguiu respirar fundo e se preparar emocionalmente para esse horário?
Pequenas mudanças consistentes geram mais impacto do que grandes atitudes isoladas.
Quando falar com o médico sobre a síndrome do pôr do sol?
É importante levar esse tema para a consulta com o geriatra, neurologista ou médico de referência, especialmente se:
- Os episódios estão cada vez mais intensos ou frequentes;
- Há risco de queda, agressividade importante ou tentativas de sair de casa;
- O cuidador está muito cansado, dormindo pouco e sem rede de apoio.
O profissional de saúde pode:
- Avaliar medicamentos que pioram ou melhoram o quadro;
- Investigar doenças associadas (infecção, dor, depressão, distúrbios do sono);
- Orientar sobre higiene do sono e, em alguns casos, considerar o uso de medicamentos específicos.
Nunca ajuste medicamentos por conta própria. Qualquer mudança deve ser feita em conjunto com o médico que acompanha o idoso.
E o cuidador, como fica no meio de tudo isso?
Aqui vai uma verdade dura, mas necessária: ninguém consegue cuidar bem de outra pessoa 24 horas por dia sem cuidar de si mesmo também. Alguns pontos importantes:
- Divida tarefas entre familiares sempre que possível.
- Negocie pequenas pausas ao longo da semana (mesmo que sejam 30 minutos para caminhar, tomar um café, respirar).
- Busque grupos de apoio a cuidadores, presenciais ou on-line; ouvir histórias parecidas faz diferença.
- Se você perceber em si mesmo sinais de depressão, ansiedade ou exaustão, converse com um profissional de saúde mental.
A Human Life acredita que cuidar bem de um idoso com demência começa por apoiar também quem cuida. Compartilhe este conteúdo com outros familiares, salve para consultar depois e, sempre que precisar, busque ajuda profissional.
Perguntas frequentes sobre síndrome do pôr do sol
A síndrome do pôr do sol é uma doença diferente da demência?
Não. A síndrome do pôr do sol não é uma doença separada, e sim um conjunto de sintomas (confusão, agitação, irritabilidade) que aparecem no fim do dia em pessoas que já têm demência, como Alzheimer. Ela faz parte dos sintomas comportamentais da doença.
A síndrome do pôr do sol tem cura?
Não existe uma cura específica, mas os sintomas podem ser bastante reduzidos com rotina estruturada, ambiente adequado, bom controle de outras doenças e, quando necessário, ajustes de medicação feitos pelo médico.
Todo idoso com Alzheimer vai ter síndrome do pôr do sol?
Não. Uma parte das pessoas com Alzheimer apresenta esse fenômeno, mas não é regra para todos. Alguns idosos quase não apresentam piora no fim da tarde, enquanto outros têm episódios diários e intensos.
É normal o idoso ficar agressivo à noite?
No contexto de demência, comportamentos agressivos à noite podem estar relacionados à síndrome do pôr do sol, mas não devem ser simplesmente "normalizados". É preciso investigar dor, infecções, frustrações, ambiente confuso e rever medicações com o médico.
Luz noturna ou abajur ajudam na síndrome do pôr do sol?
Na maioria dos casos, sim. Um ambiente bem iluminado, sem sombras fortes, costuma deixar o idoso mais seguro e menos confuso. Abajures e luzes indiretas em corredores, banheiros e quartos são aliados importantes.
Nota importante
Este conteúdo é informativo e voltado principalmente para familiares e cuidadores de idosos no Brasil. Ele não substitui avaliação médica. Diante de qualquer piora súbita, sintomas intensos ou dúvida, procure um profissional de saúde ou um serviço de urgência.
Sobre a Human Life
A Human Life é uma empresa de cuidado domiciliar humanizado de excelência para idosos, com mais de 13 anos de atuação em São Carlos e Ribeirão Preto. Nosso compromisso é oferecer um cuidado mais humano, seguro e respeitoso com o idoso — e também com quem cuida dele.
Fale com a Human Life:
- São Carlos: (16) 99622-9999
- Ribeirão Preto: (16) 99252-5222
Fontes em inglês (internacionais)
-
Cleveland Clinic – "Sundown Syndrome: Causes, Treatment & Symptoms"
https://my.clevelandclinic.org/health/articles/22840-sundown-syndrome -
Alzheimer's Association – "Sleep Issues and Sundowning"
https://www.alz.org/help-support/caregiving/stages-behaviors/sleep-issues-sundowning -
National Institute on Aging (NIA/NIH) – "Coping With Agitation, Aggression, and Sundowning in Alzheimer's Disease"
https://www.nia.nih.gov/health/alzheimers-changes-behavior-and-communication/coping-agitation-aggression-and-sundowning
Ficha resumida bilíngue (inglês/espanhol):
https://order.nia.nih.gov/publication/tips-for-managing-agitation-aggression-and-sundowning -
Mayo Clinic – "Alzheimer's: Managing Sleep Problems"
https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/alzheimers-disease/in-depth/alzheimers/art-20047832 -
Alzheimer's Association – Página Brasil (informações gerais sobre demência e suporte)
https://www.alz.org/br/dementia-alzheimers-en.asp -
Trualta – "What Is Sundowning? Understanding Its Impact on Dementia Patients" (para dados sobre frequência ~20%)
https://www.trualta.com/resources/blog/what-is-sundowning-understanding-its-impact-on-dementia-patients/ -
Arbor Company – "Understanding Sundown Syndrome for Seniors with Dementia"
https://www.arborcompany.com/blog/understanding-sundown-syndrome-for-seniors-with-dementia
Fontes em português (Brasil / Portugal)
-
Tua Saúde – "Síndrome do pôr do sol: o que é, sintomas, causas e como tratar"
https://www.tuasaude.com/sindrome-do-por-do-sol/ -
Revista Saúde (Editora Abril) – "Síndrome do Pôr do Sol: entenda o que é e como lidar"
https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/sindrome-do-por-do-sol-entenda-o-que-e-e-como-lidar/ -
Especialidades Médicas – "Entenda a Síndrome do Pôr do Sol"
https://especialidadesmedicas.med.br/entenda-a-sindrome-do-por-do-sol/ -
IPq – Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (USP) – "Síndrome do pôr do sol: confusão mental pode afetar pessoas com demência"
https://ipqhc.org.br/2021/04/02/sindrome-do-por-do-sol-confusao-mental-pode-afetar-pessoas-com-demencia/ -
Revisão em português – "Síndrome do pôr do sol em idosos com demência: revisão" (PDF – FCM/UNICAMP)
PDF – FCM/UNICAMP
Fontes sobre grupos de apoio e sobrecarga do cuidador
-
SciELO – "Support Groups for Caregivers of Patients with Dementia"
https://www.scielo.br/j/dn/a/MmmRJT8zp7jnwtxwSC5bBDt/ -
GG Aging – "The Burden of Caregivers for Elderly Relatives with Dementia"
https://ggaging.com/details/216 -
Novais et al. – "A Brazilian Support Group for Alzheimer's Disease During the COVID-19 Pandemic" (PMC)
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9011583/ -
Novais et al. – Family Caregivers Online Support Group (Alzheimer's Association journals – resumo)
https://alz-journals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/alz.066309
Última atualização: maio de 2026.
A síndrome do pôr do sol não é teimosia nem "manha": é um sintoma da demência. Quando a família entende isso, nasce espaço para mais acolhimento e menos culpa.
Citação: Equipe Human Life


